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Já ouviu falar na Síndrome do coração pós-feriado?

O fenômeno é particularmente notável durante as festividades, quando a festa substitui a rotina diária

O Carnaval iluminou o Brasil com suas cores vibrantes e ritmos pulsantes. A excitação coletiva preencheu as ruas. Mas, enquanto foliões dançavam à noite sob as estrelas, comiam e bebiam alegremente, uma ameaça sutil e insidiosa estava à espreita — especialmente quando o consumo de álcool e energéticos atinge picos.

Conhecida como Síndrome do Coração Pós-Feriado, essa condição se tornou uma preocupação silenciosa mais relevante do que nunca. Iniciando-se com sintomas leves, como um leve tremor no peito, pode rapidamente evoluir para sérias complicações cardíacas.

O fenômeno é particularmente notável durante as festividades, quando a festa substitui a rotina diária. O termo refere-se a distúrbios do ritmo cardíaco — mais comumente fibrilação atrial — induzidos pelo consumo excessivo de álcool e/ou energéticos. Surpreendentemente, essa condição pode se manifestar até mesmo em pessoas sem histórico de problemas cardíacos, alertando-nos para os riscos invisíveis de indulgências temporárias.

Recentemente, tivemos conhecimento da internação do ator Rafael Zulu devido ao uso excessivo de energéticos, que lhe provocou arritmia. “O coração deu uma acelerada e uma piorada, tive palpitações no peito. Eu tive uma fibrilação atrial por consequência do excesso de energético. Tive medo, muito medo do que vivi naqueles quatro dias internado”, relatou Zulu em um vídeo publicado nas redes sociais. Sua experiência serve como um lembrete contundente: ninguém está imune às tensões fisiológicas causadas pelo excesso de bebidas energéticas e/ou alcoólicas.

O que acontece no corpo?

Para entender como essa síndrome se desenvolve, precisamos explorar os bastidores do corpo humano sob o efeito do álcool. Inicialmente, o consumo alcoólico oferece uma sensação de euforia e relaxamento, mas, com o tempo, desregula os sinais elétricos que controlam o ritmo cardíaco. Isso resulta em batimentos acelerados e irregulares, uma condição conhecida como fibrilação atrial, na qual as câmaras superiores do coração tremem em vez de se contraírem de maneira eficiente.

Essa irregularidade pode desencadear uma série de sintomas, que vão desde uma leve sensação de tremor no peito até palpitações severas, falta de ar, vertigens e, em casos extremos, desmaios.

Adicionar energéticos à equação – muito populares entre aqueles que buscam prolongar a energia durante festas – piora ainda mais o quadro. Os estimulantes presentes nesses produtos intensificam a resposta do coração ao álcool, aumentando o risco de arritmias. Além disso, o efeito desidratante do álcool, somado ao esforço físico intenso da dança e da celebração, eleva a probabilidade de um evento cardíaco potencialmente grave.

Sintomas e riscos

Os sinais da Síndrome do Coração Pós-Feriado podem ser sutis e facilmente confundidos com ansiedade ou com a indisposição comum após uma noite de excessos alcoólicos. No entanto, qualquer anormalidade nos batimentos cardíacos, desconforto no peito, falta de ar, vertigens ou sensação de desmaio não deve ser ignorada — principalmente se houver um histórico recente de ingestão de álcool e energéticos.

Esses sintomas podem ser sinais de alerta de uma condição subjacente mais grave, exigindo atenção médica imediata. Ignorar essas manifestações pode levar a acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca ou até mesmo morte súbita.

Como prevenir?

A prevenção, como sempre, é o melhor remédio. Moderação é essencial. Embora abster-se completamente do álcool possa não ser realista para todos, limitar a ingestão e manter-se hidratado são passos cruciais para reduzir os riscos. Algumas medidas importantes incluem:

  • Alternar bebidas alcoólicas com água para minimizar a desidratação;
  • Evitar bebidas energéticas, que podem potencializar os efeitos do álcool no coração;
  • Respeitar os limites do próprio corpo e reconhecer sinais de mal-estar;
  • Descansar e se reidratar ao primeiro sinal de fadiga ou desconforto.

Conclusão

A Síndrome do Coração Pós-Feriado nos lembra que, mesmo em meio à alegria e celebração, é fundamental priorizar a saúde e o bem-estar. Ao compreendermos os riscos, reconhecermos os sintomas e praticarmos a moderação, garantimos que a batida festiva continue forte e estável por muitos anos.

As festividades devem ser aproveitadas, mas, quando o Carnaval termina e o som da folia se dissipa, que os corações permaneçam saudáveis — não apenas para mais uma dança, mas para uma vida inteira de ritmos e celebrações bem aproveitadas.

Rodrigo Almeida Souza. PHD, FESC, TEC
Cardiologia Clínica e Intervencionista
CRM-PA 7926 / RQE 4130 / 4137