Milhares de civis israelenses passaram a quarta-feira protestando na rua Gaza, diante da residência oficial do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em Jerusalém, enquanto milhares de soldados invadiram de novo a Faixa de Gaza, restabelecendo o corredor Netzarin, que a corta ao meio, um dia depois que um pesado bombardeio aéreo israelense rompeu o cessar-fogo de dois meses e matou 400 palestinos, entre eles mulheres e crianças.
Os manifestantes, maioria em Israel, segundo pesquisas de opinião pública desta semana, querem impedir que o primeiro-ministro Netanyahu demita o chefe do Shin Bet, o serviço de espionagem interno, Ronen Bar, em meio à denúncia escandalosa de envio de milhares de dólares do Catar para um dos porta-vozes do governo, Eli Feldstein, sob pretexto de uma “consultoria de imagem” antes da Copa do Mundo de 2002. Eles também exigem a libertação de 25 reféns que ainda estariam vivos.
Netanyahu está desprezando a Justiça, como seu amigo presidente Donald Trump. Ele não pode demitir o chefe do Shin Bet assim, porque quer. A procuradora-geral de Israel, Gali Baharav-Miara, enviou-lhe uma carta explicando qual o procedimento legal. E ele? Ele reagiu dizendo que vai demitir a procuradora-geral. No sábado, o ex-chefe do Mossad, o serviço externo de espionagem, Tamir Pardo, chamou Netanyahu de “covarde, charlatão e mentiroso”, diante de 40 mil pessoas na Praça Habima, em Tel-Aviv.
E a guerra recomeçou em Gaza na madrugada seguinte. Havia um acordo de cessar-fogo vigente desde janeiro que implicava num segundo, assinado por Netanyahu. Em resumo, todos os reféns seriam libertados em troca de prisioneiros palestinos, e Israel retiraria suas forças militares, fim da guerra de cerca de 48 mil mortos, iniciada em 7 de outubro, com a matança de 1.200 israelenses pelo Hamas. Há um boato de que Trump teria dito algo assim a Netanyahu: “aceite a primeira parte do acordo, e a segunda veremos”. O Hamas esperou a segunda parte inexistente, depois tentou estender primeira por mais algum tempo. Reter reféns não dá legitimidade a sequestrador, nem no Brasil.
Israel matou cerca de 400 pessoas no bombardeio inicial que devolveu a guerra à Gaza. Seis líderes do Hamas já foram mortos. A ajuda humanitária não chega mais aos palestinos. A energia elétrica para dessalinização da água do mar foi cortada. Agora, Netanyahu promete que só vai negociar “sob fogo”. Os Estados Unidos disseram que foram avisados do reinício da guerra, e não o condenaram, como ao tempo do ex-presidente Joe Biden. O Hamas não disparou nenhum foguete. Diplomatas árabes estão tentando ressuscitar as negociações no Catar.
Netanyahu saiu vitorioso. Fortaleceu sua coligação governamental com a volta do ex-ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, do partido ultranacionalista Otzama Yehudit (Poder Judeu), que renunciou por não aceitar o cessar-fogo e antecipou que votaria contra o orçamento de 2025, que derruba primeiros-ministros em Israel se não aprovado até 30 de março. Agora, sua aprovação está assegurada.
O problema de Netanyahu agora são os israelenses. Os protestos gigantescos estão se transformando em corpo a corpo com policiais. Feridos, prisões e, mais importante, reservistas voltando a dizer que não se apresentarão a seus postos se convocados, como nos primeiros meses do novo mandato de Netanyahu, quando o governo desencadeou uma campanha sem precedentes par subjugar a Justiça ao Executivo.
Os manifestantes embandeirados marcharam por Jerusalém com cartazes dizendo: “Basta com este governo de destruição”. Alguns outros cartazes incentivavam reservistas a se recusarem à guerra, se mobilizados. A polícia parou o tráfego. Os familiares dos reféns juntaram-se aos protestos, sem mais acreditar que Netanyahu vá libertar os 24 que faltam. O Hamas alertou que os bombardeios podem ter matado alguns deles, ou poderão ainda matar. Por um megafone, um homem gritou: “Nós passamos por Haman, nós passamos pelo Faraó, nós passamos pelo Mandato Britânico, nós passamos por Hitler… nós passaremos por vocês também”.
O líder da oposição Yair Lapid, do partido Yesh Atid, reagiu a um post de Netanyahu no X, no qual diz que um “estado profundo” estaria armando o sistema judicial contra ele — aliás, um argumento muito usado por Trump. “Netanyahu perdeu completamente. Saiu dos trilhos. Está espalhando conspirações perigosas, minando o estado de direito e caluniando Israel. Ele está em pânico”. E concluiu: “Estamos tomando as ruas porque o governo israelense perdeu sua legitimidade. Não vamos violar a lei, mas continuaremos firmes contra um governo que está tentando destruir o país.”
*Esse texto não reflete necessariamente a opinião da BandNews TV