A memória é a capacidade do cérebro de registrar, armazenar e recuperar informações. É ela que nos permite reconhecer rostos, reviver experiências, aprender uma nova língua ou até lembrar do caminho de casa. A memória é como um fio que costura nossas experiências, emoções e aprendizados, dando sentido à vida. É ela que nos faz lembrar o sabor da comida preferida da infância, o nome de um velho amigo ou a lição aprendida em um livro marcante. Longe de ser apenas um “arquivo” na mente, a memória é viva: muda, se adapta e até se reinventa a cada nova vivência. Graças a essa incrível capacidade, não apenas guardamos o passado, mas também construímos o futuro, aprendendo, planejando e nos transformando continuamente.
Mas, se a memória é tão essencial, por que tantas vezes sentimos dificuldade em reter o que estudamos? A boa notícia é que lembrar mais e melhor não depende apenas de talento: a memória pode ser treinada. Diversas técnicas, antigas e modernas, comprovam que é possível aprender com mais eficiência quando se utilizam imagens, associações e experiências.
Clássicos que nunca saem de moda
Métodos como o palácio da memória, conhecidos desde a Grécia Antiga, mostraram ao mundo que a imaginação pode ser uma grande aliada. Ao associar informações abstratas a cômodos de uma casa, oradores e pensadores conseguiam memorizar longos discursos sem precisar recorrer a anotações.
As técnicas de memória são estratégias criadas para facilitar o armazenamento e a recuperação de informações, tornando o aprendizado mais eficiente — métodos que utilizam associações mentais, organização de ideias em sequências lógicas, visualização de imagens marcantes e a criação de histórias que conectam conceitos.
Memory City: uma técnica contemporânea de memorização e aprendizado
Você já se perguntou por que se recorda com agilidade dos lugares que visitou, muitas vezes com riqueza de detalhes, mas não se lembra do que estudou há apenas 15 dias?
O segredo está na experiência vivida.
Entre as técnicas contemporâneas que vêm ganhando destaque está a Memory City, tema de um livro e curso de mesmo nome que desenvolvi como neurologista e professor titular da Universidade do Vale do Itajaí. A proposta é uma evolução criativa do antigo palácio da memória: em vez de se apoiar em um espaço pronto, o estudante é convidado a cocriar uma cidade dentro da mente.
Nessa cidade, locais funcionam como pontos de ancoragem para conteúdos que precisam ser fixados. O grande diferencial da técnica está no uso da memória experiencial. Ao personalizar sua cidade com elementos próprios — cores, sons, cheiros e emoções — cada pessoa transforma o ato de estudar em uma experiência única e vívida.
Imagine estar estudando biologia e, na sua Memory City, você cocria um ambiente colaborativo, por exemplo, uma cafeteria em Paris, próxima à Torre Eiffel. Enriqueça esse espaço com uma música ao fundo, o aroma de um croissant delicioso, pessoas passando pela rua, a temperatura do ambiente — enfim, elementos que tornem o local vívido na mente. Após isso, inicie o estudo e, a cada distração ou pausa, retome mentalmente o ambiente cocriado, como se o estudo estivesse acontecendo ali, com aquelas imagens mentais.
O que acontece aqui?
O conhecimento semântico, que normalmente seria aprendido e armazenado em uma espécie de arquivo mental, é realocado para um contexto de experiência e vivência. Não foi apenas um estudo de biologia, mas um estudo em uma cafeteria em Paris, próximo à Torre Eiffel, com múltiplas informações sensoriais que tornam o ambiente propício para receber o conteúdo aprendido.
Dessa forma, o conhecimento deixa de ser abstrato e ganha vida em forma de experiências mentais.
Antes de se tornar um livro, a metodologia foi testada em um curso e validada por meio de um experimento com alunos de medicina, que utilizaram a técnica ao longo de seis meses. O grupo que aplicou o método obteve notas 32% superiores em comparação aos alunos que não a praticaram. Esses resultados levaram à validação e publicação da técnica.
Mais do que decorar: viver o aprendizado
A Memory City mostra que aprender não precisa ser um exercício frio e repetitivo. Pelo contrário: quando transformamos informações em imagens criativas, experiências sensoriais e narrativas emocionais, criamos vínculos mais fortes no cérebro. O aprendizado se torna leve, prazeroso e, acima de tudo, duradouro, pois a memória passa a ter um “lugar” onde foi construída.
O segredo é simples: para memorizar melhor, precisamos entrar no jogo da imaginação e da cocriação. Quanto mais ativa e criativa for a forma de estudar, mais sólida será a construção do conhecimento.
Prof. Dr. Marcelo Zalli – CRM/SC 17.333 | RQE 13.326
Neurologista
Professor Titular de Neurologia na Universidade do Vale do Itajaí
Membro da Brazil Health
