Reposição hormonal em alta: benefícios, riscos e a importância de um plano individualizado

Uso inadequado de hormônios pode trazer efeitos adversos graves e aumentar riscos cardiovasculares, metabólicos e até oncológicos
Reprodução: Freepik

Como especialista em hormônios, tenho recebido cada vez mais pacientes usando megadoses de reposição hormonal, tanto feminina quanto masculina. O modismo atual parte da ideia de que altas doses de hormônios — muito acima daquelas medicamente recomendadas — podem ter efeitos anti-aging, melhorar a libido e promover ganhos físicos e estéticos. Porém, essa prática apresenta riscos importantes.

Reposição masculina: riscos para a fertilidade e para o coração

A reposição hormonal é indicada quando há déficit hormonal comprovado. Porém, muitos homens com níveis normais de testosterona acabam fazendo uso do hormônio sem necessidade. Para quem deseja ter filhos, isso pode ser prejudicial: o volume dos testículos pode diminuir e a contagem de espermatozoides cair. Embora os efeitos positivos, como melhora da energia e libido, possam ocorrer no início, com o tempo o corpo se adapta e a libido pode até piorar. Outros efeitos adversos incluem aumento da próstata, alterações cardiovasculares, como aterosclerose, e ginecomastia (aumento das mamas).

Reposição feminina: doses altas e anabolizantes aumentam riscos

Em mulheres, o uso de hormônios sem necessidade, especialmente com anabolizantes e implantes subcutâneos, pode provocar virilização, ganho de peso, queda de cabelos e, principalmente, aumentar o risco de câncer de mama. A utilização sem indicação do hormônio do crescimento (GH) também vem crescendo devido aos efeitos estéticos rápidos, mas essa prática pode levar ao desenvolvimento de câncer, diabetes e outros problemas graves.

Tireoidianos e outros hormônios: o uso indevido como atalho perigoso

Outra conduta inadequada é o uso de hormônios tireoidianos por pessoas sem diagnóstico de hipotireoidismo, buscando emagrecimento rápido ou mais energia. O resultado, principalmente em jovens, pode ser o oposto, com ganho de peso, além de riscos de arritmias, osteoporose, queda de cabelos e outros efeitos colaterais.

Quando a reposição é bem indicada

Não sou contra a reposição hormonal. Quando existe um déficit comprovado, sintomas associados e ausência de contraindicações, os efeitos são excelentes. Porém, defendo sempre o uso da menor dose eficaz possível, pois assim o risco de câncer de mama em mulheres é reduzido e os efeitos colaterais em homens diminuem. No sexo masculino, também é importante tentar restabelecer a função natural dos testículos, já que a queda da testosterona é multifatorial e, muitas vezes, reversível.

Maurício Yagui Hirata – CRM-SP 59813 / RQE 088604

Endocrinologia e Metabologia

Membro do corpo clínico do Hospital Albert Einstein e Sírio-Libanês

Membro da Endocrine Society, European Society of Endocrinology e American Association of Clinical Endocrinology

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