A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos pode significar risco para a atração de capital externo para o Brasil. O alerta é do ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral.
Em entrevista aos apresentadores Felipe Vieira e Lenny Leone BandNews TV, ele sinalizou que uma canetada norte-americana pode significar um cavalo de pau nos investimentos no Brasil.
"Os investidores estrangeiros, quando confrontados com essa questão dessa classificação dO PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas podem puxar o freio e parar de investir no Brasil , que precisa desses investimentos pode ter aí um refluxo forte. Há estudos que mostram que dependendo do país esse essa queda de investimento pode ser bastante considerável"
Para ele, a medida está longe de ser comemorada e pode custar a reputação brasileira diante da economia mundial.
"O Brasil precisa atrair investimento estrangeiro e evidentemente esta não é um bom momento pro Brasil sofrer um dano reputacional, porque no final é um dano reputacional para o Brasil como destino de investimentos. Então quem está comemorando isso, provavelmente está muito desavisado."
Além disso, legislação norte-americana prevê punições rigorosas para quem fornecer o chamado "suporte material" a facções classificadas como terroristas, mas como a definição é vaga, pode servir como ferramenta de sanção em diversos setores da cadeia produtiva.
"O que é considerado suporte material pode ser muito vago. Pode ser, por exemplo, uma empresa que seja de capital americano no Brasil que contrate uma transportadora que tenha ligações com a organização dessas, ou que se abasteça num posto de gasolina que esteja ligado à lavagem de dinheiro (...). É um efeito de muito risco para o investidor.", explica o ex-secretário.
O EXEMPLO MEXICANO
O exemplo recente do México mostra as consequências colaterais da medida: além de travar o investimento americano, a classificação de cartéis como grupos terroristas afetou diretamente o movimento de empresas que saem da Ásia para se instalarem no continente americano, conhecido como nearshoring.
" Houve claramente um dano ao investimento no México havia um movimento muito grande de empresas americanas estavam voltando da Chin para reinvestir no México e diminuíram por conta do custo adicional e de compliance relacionado com a declaração de organizações terroristas"
O setor de turismo, que representa cerca de 15% do PIB nacional, foi duramente atingido pela decisão do governo Trump. O movimento foi um efeito dominó que atingiu empresas de turismo e até setores que operam plano de seguro viagem.
O turismo norte-americano no México caiu depois dessas declarações (...) porque os consulados americanos emitem mais advertências, porque as agências de turismo restringem emissões, porque aumenta o custo de seguro.", explica Barral
ALERTA PARA FINTECHS
Para Welber Barral, o sistema financeiro tradicional brasileiro não deve sofrer sanções diretas graças à particas de compliance que garantem operações sólidas, mas faz um alerta sobre questões regulatórias para bancos digitais e fintechs
“O sistema financeiro brasileiro é amplamente controlado e, assim como ocorre em quase todo o setor, mantém relações estreitas com os Estados Unidos, envolvendo exportações, investidores e fundos na bolsa americana. Devido a esse histórico, o sistema brasileiro já possui grande familiaridade com sanções impostas pelos EUA — como a Lei Magnitsky e as restrições aplicadas a Cuba, Venezuela e Irã —, que exigem um nível de compliance extremamente elevado.
Essa experiência prévia traz certa tranquilidade ao setor financeiro tradicional. No entanto, para as fintechs, que possuem estruturas menores, o desafio será maior, pois as novas regras americanas aumentarão significativamente as exigências de conformidade.
É importante ressaltar que o impacto não se restringe ao sistema financeiro. Qualquer investimento no Brasil que possua relação direta ou indireta com organizações agora classificadas como terroristas, e que também mantenha vínculos com os Estados Unidos, enfrentará um trabalho dobrado. Essas empresas precisarão ser muito mais cautelosas ao demonstrar que realizaram a devida diligência em relação aos seus parceiros comerciais em território brasileiro.”, conclui o secretário.


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