Aconteceu mais uma vez. A FIFA até criou o protocolo, mas não adiantou, o atacante do Real Madrid, Vini Jr., voltou a ser alvo de ataques racistas na Champions League. Tudo começou aos 5 minutos do segundo tempo do jogo contra o Benfica que terminou em 1 a 0 para os madrilenhos depois de um golaço do brasileiro.
Na hora da comemoração, Vini dançou na bandeirinha, provocou a torcida e levou amarelo. Aí entra a figura do meia argentino Prestianni. O jogador do time português cobre a boca com a camisa e se dirige ao brasileiro que ouve a palavra mono, ou seja macaco, e imediatamente corre para informar ao árbitro.
O protocolo antirracismo foi acionado, o jogo ficou parado por 10 minutos e a partida seguiu normalmente. Vini foi vaiado e xingado pelo estádio, além de ser provocado por jogadores do time português. Na arquibancada, torcedores foram vistos imitando macacos.
Após essas cenas vergonhosas, vieram os posicionamentos, começando por Prestianni. Nas redes sociais, ele escreveu: “Em nenhum momento dirigiu insultos racistas contra o jogador Vinícius Júnior, que, infelizmente, interpretou mal o que pensou ter ouvido. Nunca fui racista com ninguém e lamento as ameaças que recebi de jogadores do Real Madrid”.
A conta oficial do Benfica nas redes sociais fez esse post em que diz que “os jogadores do Real Madrid não poderiam ter ouvido o que andam a dizer que ouviram” e ainda completaram defendendo Prestianni declarando que o time está junto do jogador acusado de racismo.
O único jogador a partir em defesa de Vini Jr. foi o francês Kylian Mbappé. Ele testemunhou o episódio contra Vini e relatou a sequência de ataques racistas.
“Aconteceram muitas coisas (em campo), é preciso falar com calma porque as pessoas precisam entender bem o que aconteceu. Vini fez um gol, começou a dançar, e as pessoas ficaram bravas. Isso é normal no futebol, acontece e vai voltar a acontecer. Depois teve um pouquinho de tensão da equipe do Benfica com o Real Madrid, e isso pode acontecer, é Champions”, afirmou o francês.
Ele continuou o relato. “Depois, o número 25 (Prestianni), não quero falar o nome dele porque ele não merece, começou a dizer palavras inaceitáveis. E depois meteu a cara dentro da camisa para que as câmeras não captassem o que ele dizia e disse cinco vezes que Vini é um ‘macaco’. Eu, Vini e muitos jogadores do Real Madrid perdemos o controle”, declarou.
O brasileiro já sofreu mais de 20 insultos racistas na Europa. Em entrevista ao Tarde Band News, com Paula Valdez, Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, criticou a inversão de papéis e casos de racismo no esporte.
“O jogador quando é substituído, é aplaudido, ou seja, a vítima está quase sozinha naquele momento momento do jogo. Isso é algo que a gente precisa mudar no futebol. A gente não pode tratar quem denuncia racismo como o vilão. As pessoas precisam entender que quem comete racismo é o vilão e precisa ser punido. Ele é o agressor.
Quem denuncia racismo, quem fala sobre racismo e expõe a sua dor, precisa ser acolhido e não o contrário”.
PROTOCOLO ANTIRRACISMO
O protocolo antirracista da Fifa foi implantado em 2024 e possui três etapa. Na primeira, o árbitro recebe a denúncia dos jogadores e decide se vai paralisar, ou não, a partida.
Nesta fase, os telões dos estádios passam uma mensagem com aviso de que a partida pode ser suspensa caso os problemas não cessem.
Se os ataques persistirem, a arbitragem pode cancelar o jogo. Os árbitros têm o poder de analisar a situação antes de tomar uma decisão definitiva. Tudo fica registrado na súmula
Para Marcelo Carvalho, as medidas da Fifa não são suficientes: “Quando o racismo é praticado por torcedores, com cânticos racistas, por exemplo, o árbitro interrompe o jogo e avisa que o jogo vai ficar interrompido enquanto os cânticos não cessarem.
Mas ele vai interromper o jogo mais duas vezes, ou seja, ele dá três oportunidades para essas pessoas usarem o futebol para proferir insultos, teorias nazistas e fascistas. A gente precisa mudar isso. Eu acho que o protocolo não pode ter três passos, ele pode ter no máximo dois. Por isso, o protocolo precisa ser repensado para dar mais acolhida à vítima”.
REAÇÃO NO MUNDO
Na Espanha, a repercussão veio nos jornais especializados. O Marca estampou na manchete: “Vinícius, Carrasco e vítima”. O Diário As foi na mesma linha: “golaço e constrangimento”. Em Portugal, o Record fez um jogo de palavras com o termo envenenado e escreveu “envininado”, citando o gol e a acusação.
REAÇÃO NO BRASIL
A CBF apoiou Vinícius Júnior nas redes sociais, postando que o jogador foi vítima de mais um ato de racismo. “Racismo racismo é crime, é inaceitável, não pode existir no futebol nem em lugar algum. Vini, você não está sozinho. Sua atitude ao acionar o protocolo é exemplo de coragem e dignidade. Temos orgulho de você”.
O Flamengo também deu suporte ao atleta: “O que o Vini Júnior vive não é só sobre futebol. Ali tem um garoto que sonhou, que lutou, que venceu muita coisa para estar onde está e dói ver alguém ser atacado simplesmente por ser quem é. Racismo não é parte do jogo, machuca e não pode ser normalizado”, escreveu o rubro-negro carioca.
Por fim, o próprio Vini se posicionou e chamou os racistas de covardes: “Racistas são, acima de tudo, covardes. Precisam colocar a camisa na boca para demonstrar como são fracos. Mas, eles têm, ao lado, proteção de outros que, teoricamente, têm a obrigação de punir. Nada do que aconteceu hoje é novidade na minha vida e da minha família”.